• José Leonídio

PLACERE MULTIS OPUS EST DIFFICILLIMUM

“Placere Multis Opus Est Difficillimum” - frase proferida pelo escritor latino de origem síria Publius Syrus no século 1o a.C e que quer dizer agradar a todos - é a coisa mais difícil, trazendo para a atualidade, nas palavras do inesquecível Nelson Rodrigues, “A Unanimidade é Burra”.

Quando pensamos, falamos ou escrevemos, trazemos sempre as observações que estão acumuladas em nossa memória. A vida é um motor contínuo de vivências, de experiências que não se apagam. Não somos uma lousa cujo apagador extingue o que estava escrito; não somos um computador do qual deletamos o que não nos agrada.

Cada minuto vivido é um minuto registrado na memória. Às vezes pensamos que o apagamos, porém, ficará registrado, guardado numa gaveta inacessível a nós, mas não ao nosso cérebro.

Grandes lembranças seguirão lado a lado conosco, por toda a vida, fazendo com que nossa área de recompensa agradeça e nos tornando felizes naquele instante. As lembranças que são fruto de nossas frustações ficarão nas gavetas escondidas e trancadas a sete chaves.

Quando escrevemos, usamos todo o conhecimento de nosso cérebro e vamos transportando para a tela do computador, ou para o papel, toda esta vivência. Como se fosse um filme que só nós assistimos, vamos descrevendo as cenas uma a uma, os diálogos ecoam dentro de nós como se estivéssemos assistindo.

Nosso cérebro se encarrega de fazer a amálgama, de unir os personagens, de dar a eles suas características. Pessoas marcantes em nossa vivência entram nas histórias, e não raramente com personalidades trocadas, ou avivadas em suas personalidades.

O que tem a ver o início de texto com o escrever um texto, uma poesia, um romance, um pensamento?

Tudo o que redigimos é ditado pela nossa área de inteligência, que processa todas as informações que recebemos durante a vida. Não podemos esquecer que acumulamos na nossa infância as experiências das quais a família é a principal fornecedora para nossa memória.

Na adolescência, associamos o convívio familiar às novas descobertas que estão do lado de fora das nossas casas e, a partir do fim destas novas experiências, construímos o nosso eu, quem somos, o que pensamos. Porém, esta é somente uma parte de nós, porque muito mais informações ficam armazenadas e constituirão nosso caminho a seguir, sem que nós saibamos.

Um exemplo é o que chamamos de Anjo da Guarda. Estamos na beira do meio fio, um carro se aproxima e instintivamente movemos o corpo para trás, mas nós não percebemos visualmente o perigo. Alguma coisa cai do alto e levantamos o braço e o que viria em direção a nossa cabeça bate no nosso braço e se desvia. Nós não vimos estas cenas, mas nossos cérebros enxergam muito mais que nós e as experiências de perigo ficam registradas. Quando ele percebe esse risco, nada mais faz que dar um comando e nos afastar do perigo. Este é o nosso verdadeiro Anjo da Guarda.

Escrever o que vivemos, sentimos e observamos tem todo um comando central, que é único. E, por isso, podemos agradar a uns e desagradar a outros. Nossas sintonias são como as ondas na praia: numa parte espraia suavemente, em outra estoura que se ouve seu ribombar ao longe, há aquelas que destroem o quem veem pela frente.

Termino novamente citando Publius Syrus e “Placere Multis opus est difficillimum”.


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