• José Leonídio

O Tempo e a Flor

Quantas vezes admiramos a beleza de uma flor, suas cores, seu perfume? Toda esta combinação é, entretanto efêmera, dura o tempo necessário para a polinização e a fecundação. Podem levar somente algumas horas, dias, algumas se escondem na escuridão da noite e aos primeiros raios de sol não mostram mais a exuberância.


Dentre elas, muitas perfumam as noites, com seu odor ao longe. Dizem que as flores nada mais são do que as folhas que se enfeitam, para perpetuar suas espécies. Na nossa intenção de decorar nossos ambientes com sua formosura, as colhemos e colocamos em vasos. Fora do seu habitat, muitas não conseguem manter o esplendor que apresentam na natureza, encurtamos seu tempo de vida no nosso egoísmo de aprisionar o belo.


O tempo limita a exposição da riqueza expressa em cores e aromas da natureza. Este prazo, poderíamos dizer é do clímax do amor que também existe nos vegetais. Eles se preparam para este momento e é tão marcante que fica gravado para sempre na memória de muitos.


Registrado por câmeras guarda o instante de rara beleza para nós.. Mas, para eternidade, é apenas uma imagem fria, dissociada do tempo e da amplidão de sentimentos que gerou. Olhos que sorriram, que verteram lágrimas, que assim como elas iniciaram novos amores. O belo é efêmero, o tempo leva-o com ele, e dele só restarão lembranças.


Um botão desabrocha numa flor de matizes variadas, atrai os insetos que absorvem seu néctar de amor, a polinizam, mas também alimentam novos amores. É o motor contínuo da vida que vai se renovando a cada primavera. A natureza não permite que modifiquemos sua obra, nem que interferiramos no seu tempo de exposição. É uma obra finita.


Alguém dirá: as flores murcharão, mas as conservamos, criamos espécies semelhantes de materiais inertes que as preservam para sempre!

Creio que não, é somente uma imitação da natureza fria, trazendo as suas formas e suas cores, porém não dão ao ambiente frescor e o perfume da vida. É uma pulcritude artificial, que não consegue despertar sentimentos, somente a contemplamos.


A procura da perfeição, da beleza de Apolo e de Afrodite é comparável ao tempo de duração das flores. Deixamos de ser nós mesmos para nos transformarmos num ser artificial, como se num toque de mágica adquiríssemos o esplendor dos deuses gregos. Assim como as flores naturais, somos finitos: nascemos, crescemos, viramos botões, desabrochamos, o amor nos ocupa. No entanto, o

Tempo é uma escada que se sobe e não tem volta.


O frescor de ontem pode não mais estar junto de nós hoje. As transformações estéticas na procura da aparência externa não correspondem as do seu por dentro. A beleza comprada a peso de ouro não encontrarão as necessidades do entendimento, que é somente uma: tornar mais visível, mais atraente, de chamar atenção por um falso belo.


Ah, o Deus do Tempo, este não respeita nossos esforços de nos tornarmos seres admiráveis por toda vida: ele não entende nossa necessidade de sermos modelos perfeitos. Esse, para ele, não existe, assim como nas flores. Hoje nasce um exemplar do belo e no ano seguinte surgem novos, cada qual com suas propriedades.


Por mais que nos transformemos em Ápolos e Afrodites, usando todos os recursos estéticos que estão à nossa disposição, nossos frutos (filhos) sairão à nossa imagem e semelhança, no formato original, o que fomos, não o que nos tornamos. Admirem as flores, enquanto durarem, sintam seus perfumes, porque sua beleza é limitada pelo Deus Tempo, o por fora se vai, o por dentro fica. Cultive o belo que existe dentro de você.



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