• José Leonídio

O SOM DO VAZIO

A brisa mais forte faz balançar o sino dos ventos e ele emite sons como se fosse programado para tal, mas não: são seus tubos de tamanhos variados que propagam ondas sonoras em frequências diferentes, numa composição regida pela natureza.


Os tubos são vazios, sem teclas, cordas, pistões ou válvulas rotativas e, mesmo assim, capazes de, através de seus variados tinidos, nos presentearem com uma composição inédita a cada vez que o vento lhe acaricia.


Na vida, quantas vezes nós nos sentimos, precisamos ou ficamos sós? O isolamento, em determinadas ocasiões, faz-se necessário para escutarmos o som do nosso vazio. Nestes momentos, conseguimos encontrar nossas emoções através das batidas dos corações. Quando fechamos os olhos e nos ausentamos do nosso entorno, ouvimos um som que não sabemos de onde vem, ele simplesmente faz-se presente e é o fundo musical que nos acompanhará na

nossa soledade.


Quando se medita, o que buscamos é equilíbrio entre o corpo e a mente e, nesse momento, o som do vazio nos harmoniza. Os monges e eremitas buscam, nos retiros, as respostas que somente lhes será dada através das diversas composições emitidas pela magia da natureza, ou seja, o farfalhar das folhas, marulhar das ondas, assovio dos ventos: sons aparentemente vazios, mas cheios de energia sonora, exatamente o que precisam em suas meditações.


Por mais que preenchamos nossas vidas com a agitação do dia a dia, estejamos no local em que estivermos, existem momentos nos quais gostaríamos de ser invisíveis, transparentes mesmo, de conseguirmos nos esconder, de deixar de ser o inverso e ser o verso, a parte escondida de nós, aquela que não mostramos a ninguém, muitas vezes nem ao analista. Nesses instantes, queremos ser o som do vazio, que não se sabe de onde vem e para onde vai.


O amor, ao contrário da paixão, tem dentro de si a mágica de ser só, amamos, ouvimos seu som, clamamos por ele, nos ausentamos por sua causa; na solidão da noite, ele bate célere, porém ritmado, aguardando outro som vazio, que comporá a escala musical do que é chamada felicidade: o silêncio do amor, acompanhado pelo som de dois corações que se fundiram, pelo menos naqueles segundos.


O silêncio da ausência é como se fosse o som emitido, quando passam do arco nas cordas do violoncelo. Uma vida composta de duas metades, ao perder uma, cai no abismo do estar só. A metade que fica tenta se agarrar às raízes emergidas das escarpas de uma árvore que nasceu de sementes plantadas a quatro mãos e que tanto colheram seus frutos. Neste momento, no entanto, resta-lhes o som do vazio.


Um poema num livro fechado não representa nada, não chega aos olhos de quem, ou para quem, foi escrito; um poema lido traz no seu contexto uma melodia particular a cada um que o lê. Um poema declamado é como o bailar de letras tendo como par de notas musicais, formando casais que se harmonizam. O poeta é a personificação do som do vazio, a emoção do seu vazio, se transporta para o papel ou o teclado através de letras que formam palavras, que formarão versos, que se transformarão em poemas.


Um palco vazio são atores sem voz, é a ribalta que se apaga, são aplausos que não se ouvem, sorrisos ausentes. O som da vida assemelha-se ao som dos palcos, com aplausos e vaias, com peças escritas que cairão no gosto do público, ou não, com todo o requinte de uma iluminação ou penumbra.


O palco da vida sem emoções é como existir sem viver. É quando nem o som do vazio faz-se presente.





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