• José Leonídio

O BELO E A SINGELEZA


O belo pode ser singelo porque na singeleza se está despido de todos os ornamentos e é quando você se apresenta, na sua beleza natural. Quando encobrimos nossa naturalidade, mostramos para fora um belo artificial. A vida não precisa de ornatos. Necessita, sim, do simples, de que sejamos singelos, porque esta é nossa verdadeira beleza.


Quando acordamos cedo para contemplarmos o raiar do dia ou simplesmente sentamos a beira mar para ver o sol se pôr, admiramos um cenário de luzes e cores, sem efeitos especiais, de uma beleza pura, imutável a nossos olhos. Por mais que tentemos registrar aqueles momentos com nossas lentes, só conseguiremos captar uma pequena fração do espetáculo que a natureza nos oferece.


Não existe nada mais puro, mais inocente do que o sorriso de um recém-nascido. Muitos dizem que sonham com os anjos, não sei. É um riso que nunca mais conseguiremos ter, porque na medida em que crescemos, vamos adquirindo novos valores que o apagam de nossa memória.


Passamos a sorrir de acordo com a ocasião em que estamos vivendo, ou mesmo, para registrar um momento onde sua presença é irreal, um artifício que utilizamos para registrar muitas vezes uma felicidade inexistente.


O belo não precisa de retoques, porque passa a ser um artificial. Dizem que a vida imita a arte no seu ponto focal, ou seja, naquele instante, naquele momento, você o admira, mas em frações de segundo, ele se desfaz.


Você segue um bando de biguás formando um desenho no céu, em seu voo de retorno aos seus ninhos no fim da tarde, porém de tempos em tempos alteram sua estrutura e uma nova formação apresenta-se: é um novo quadro, uma nova pintura, onde céu, nuvens, raios de sol se juntam, num novo arranjo, neste momento, só nós cabe contemplar.


O amor e o belo não são complementos, porque a beleza e a singeleza, não completam um sentimento. Ama-se a beleza não do que se apresenta externamente, não nos apaixonamos por uma escultura e sim por um ser completo, onde o belo e o singelo podem não corresponder a beleza física, porém traçamos seu perfil de conversa em conversa, e é este quem nos mostrará sua verdadeira face, aquela que nos envolverá, que muitos chamam de almas gêmeas.


Não existe nada mais puro, mais belo e singelo do que o amor de uma mãe por seu filho (a). Esta é uma ligação tão forte que em situações que envolvam risco eminente para ele (a), a mãe sai da passividade total, para a agressividade desmedida, tudo em função da proteção de sua prole. O belo e a singeleza se unem à pureza. Os olhares se encontram no ato mais singelo, o de amamentar, a identificação externa de uma relação que nunca se extinguirá.


Um pássaro na natureza canta por sua fêmea, um canto alegre de liberdade. Um pássaro escravizado canta, porém, perde a beleza a alegria do seu canto, é um canto triste de quem foi privado de sua liberdade. Aprisionou-se o belo, a singeleza contida em seu canto, em suas cores.


Nem sempre o poder ter tudo significa a felicidade plena, pois para que a conquistemos, é preciso que possamos enxergar a beleza e a singeleza que nos cercam e que não estão à venda, porque não são mercadorias compráveis em shoppings ou magazines. O estar belo não significa ser belo. O ser singelo é uma construção de valores que se acumula durante a vida.


Uma mão que se estende, um simples sorriso, um abraço, uma palavra, mostram o belo e a singeleza de quem os faz. Entender que a vida é uma estrada cheia de retas e curvas, mas que nunca volta ao mesmo ponto, é o princípio de um mergulho para dentro de si mesmo, e ir ao encontro do belo e da singeleza.


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