• José Leonídio

NO MEU TEMPO

Tempo, substantivo masculino que nos leva para duas interpretações: primeira, a de um determinado intervalo que permite que criemos o juízo de presente, passado e futuro; segunda, um espaço no qual encontramos determinados fatos, passagens e acontecimentos que ficaram marcados individualmente ou na coletividade.


Ao pensar nestas definições, imediatamente me transporto à obra clássica “Pediatria”, datada de 1944, do professor Joaquim Martagão Gesteira, quando comenta o quanto era difícil ensinar os conceitos da puericultura moderna, ou seja, sobre como lidar com os recém-nascidos. E não era complicado ensinar para as mães, mas sim para as avós, e comumente ouvir o bordão:


- Doutor, na minha época não era assim e criei todos os meus filhos.

Em 1987, Jose Ortega Y Gasset escreveu em a “Juventude”, em “Rebelião as Massas”:


- É certo que a geração anterior não nos deixou de herança nenhuma virtude moderna. Cada geração chega ao mundo com uma missão especifica, com o dever adstrito nominalmente à sua vida.”


O tempo é a razão dos dias. E ele se constrói de acordo com cada um. Se tomarmos o exemplo de dois gêmeos idênticos, são absolutamente iguais fisicamente, mas no conceito tempo são absolutamente diferentes, não são espelhos.


No conceito temporal um deles nasceu primeiro, a luz entrou em seus olhos numa determinada hora, o outro virá logo depois, num outro horário e a luz que entrará nos olhos deste não é a mesma. A voz de boas-vindas de sua mãe não tem a mesma entonação que teve com o irmão. Em cada minuto de suas vidas as situações também serão diferentes: cada um terá seu tempo, suas memórias, que, embora parecidas, serão individuais.


Um clone não é o mesmo ser, é o anti ser, só mesmo a parecença física, porém nasceram em tempos e vivências diferentes e serão personalidades antagônicas, passado e presente que se confluem. O Cristo e o AntiCristo.


Não me lembro de quem é a frase que diz:


“Todo jovem por ser jovem é um contestador, todo velho por ser velho, um conservador.”


No nosso tempo vamos criando nossas imagens e acumulando-as em nossas memórias recentes ou remotas. Qualquer mudança, dependendo da situação e da forma como se apresente, é encarada com restrições, porque muitas vezes não conseguimos acompanhar as novas situações.


Se usarmos como exemplo que estamos caminhando e de repente escorregamos e caímos ao chão numa situação vexatória e que, naquele instante, diversos olhares críticos nos são dirigidos, ficamos envergonhados. Esta sensação ficará dentro de nós durante uma boa parte do tempo, não a esqueceremos.


Agora, se pensarmos que aquele espaço de tempo, com aquelas pessoas, ficaram para trás, e que ao sairmos daquele espaço e daquele tempo, ninguém mais saberá da cena, só você próprio, e que carregará este sentimento como algo vexaminoso que, a seu ver, estará gravado nos olhos de todos, se você se descola daquele tempo e vive o seu novo tempo, abre novas janelas. Aquelas ficarão no baú do passado.


Ninguém vive o tempo do outro, cada um vive o seu. A vida é construída de tempos que se acumulam. Com eles as experiências amontoadas. É com elas que montamos nosso mosaico, pintamos nosso quadro com nossas tintas, construímos a nossa estrada e por ela caminhamos nos ancorando em nossos experimentos.


Nestes tempos em que o isolamento nos faz restringir experimentos, guardemos para nós o que vivemos, porque algum dia diremos: no “MEU TEMPO, NAQUELE TEMPO”... Mas estas serão somente nossas memórias. O nosso tempo não é o mesmo tempo de ontem, de hoje ou de amanhã.


Uma foto de uma árvore feita há cinco minutos não é a mesma da que é feita agora; os pássaros que voaram agora são outros; frutas e folhas caíram. A paisagem é a mesma, mas seu conteúdo não.



Cuidem-se, nos seus tempos.

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