• José Leonídio

Dias de Outono



As montanhas da Guanabara adquirem sua maior beleza com os contornos feitos pelo sol de abril e essa exuberância da natureza não se faz por acaso: é tempo do ocaso, é tempo do pôr do sol, onde as folhas amarelecidas começam a cair, estamos no tempus autumnus, ou seja, no outono.


O doirado do sol nas montanhas no arrebol aos poucos vai desaparecendo, o veris[1], ou seja, o bom tempo, o verão, ficou para trás, o outono prepara o caminho para a chegada do tempus hibernus[2], o tempo de hibernar, o inverno. Quando este chega, nos recolhemos ao nosso núcleo familiar, pois a união de todos é a lareira que nos aquece em tempos gélidos.


O inverno por mais difícil que possa ser para atravessá-lo é finito, assim como chegou precedido pelo outono, quando o calor do sol deixou de ser nossa companhia e o astro rei começa a despertar deixando o Tempus hibernus para trás e abrindo caminho para a primo vere, que em sua origem latina quer dizer o primeiro verão, a primavera.


A primavera começa a aquecer os corações. É a estação na qual a natureza se apresenta trazendo o amor em toda sua exuberância, perfumando nossos caminhos e frutificando para a eternidade todas as espécies. Primeiro verão, um novo caminho para o bom tempo.


A primavera desagua no verão, onde o sol volta a brilhar e nos aquecer, com a sua alegria contagiante do estar presente em cada um dos raios. Ele é acordado cedo pelo canto do sabiá, porque veris, o bom tempo, tem que ser vivido em toda sua plenitude. Não existe nada que o supere, porque sua luz alimenta nossa vontade de viver plenamente.


Estamos em tempos de ocaso, do outono, as folhas de nossas árvores da vida estão amarelecendo e ficando no chão da estrada. São tempos sombrios, nos quais mesmo sem ser seu momento, o tempus hibernus se aproxima. O frio resultante das decisões não tomadas começa a invadir todas as casas, independente de classe social, etnia, faixa etária ou crença religiosa.


Falta-nos a lenha para que nossas lareiras possam ser acesas e nos aquecer. Os caldos quentes que tanto nos acaloram não mais estão nas nossas mesas. Os chás que esquentam nossos corações também não estão mais presentes. Resta somente nossa fé de que unidos atravessaremos o hiems, o mau tempo.


Nossos cobertores se desfizeram, nossas esperanças, no entanto, continuam porque sabemos que o tempo é cíclico, se hoje ele não nos é favorável, amanhã será. A única coisa que não podemos deixar de ter é a confiança de que a primo vere chegará e que o sol do verão, que se escondeu, voltará a brilhar,


Não podemos nos esquecer de que somos antes de tudo Brasis e que nossa origem é a de um povo da cor da brasa, que nunca desiste. Sempre fomos fortes, ultrapassamos constantemente todas as dificuldades que apareceram nos nossos caminhos, superamos todos os obstáculos.


Não existem barreiras que não sejam ultrapassadas. Assim como o sol que nos aquece se vai no fim da tarde, com a noite e o frio se fazendo presentes, estes também irão e os raios de sol que clareiam o dia e que despertam com suas energias da hibernação noturna, e os beija-flores voltarão a nos aquecer e a nos iluminar.


Veris, o bom tempo, nunca saiu de dentro de nós. Por mais que as situações adversas teimem em bater as nossas portas. O hiems, o mau tempo, ao contrário, é passageiro e sua presença junto a nós está na razão direta da nossa capacidade de encurtar sua permanência.


É tempo de acreditar que nós podemos, nós conseguimos, nós merecemos. Está em nossas mãos fazê-los acontecer.


[1] Veris – bom tempo. [2] Hibernus derivado de hiems - mau tempo.

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