• José Leonídio

CARTA QUE NUNCA ESCREVEMOS

Não existe beleza maior que a da mulher grávida, da mulher concebida. Tanto assim é verdade que Maria, ao ser concebida sem o pecado original, com o passar dos séculos, recebeu a atribuição de NOSSA SENHORA DA CONCEPÇÃO, do latim conceptus, concepção.


No Brasil, a adoração a Maria grávida, concebida, foi introduzida sob a influência religiosa dos colonizadores portugueses. Nossa Senhora da CONCEPÇÃO, com o passar dos anos, passou a ser conhecida como Nossa Senhora da CONCEIÇÃO.


Cada um de nós tem a sua Maria Concebida, que lhe albergou, desenvolveu, alimentou, protegeu do frio e do calor, de todo e qualquer mal que pudesse nos comprometer.


Um dia nossa Maria Concebida recebeu o aviso de que era hora de conhecer sua obra mais nobre, seu filho. Nunca mais nos separamos dela. Cortaram o vínculo maior que nos unia, porém deixaram a cicatriz, tatuagem natural, para lembrar-nos do quanto dela dependemos e dependeríamos.


Nossa Maria Concebida agora recebera a denominação de MÃE, que passou a ser nosso cobertor no frio, nossa água fresca na sede dos desertos cálidos, nosso conforto na tristeza, nosso sorriso na sua alegria.


Acho que nunca lhe dissemos a importância que a escolha dela teve para nós. Quando nos deste o direito à vida, não fomos fruto de uma combinação previamente conhecida, nos concebeste na aura do amor maior.


Nossas primeiras trocas foram pura adrenalina com o som das batidas do seu coração acelerado, que nos chegavam como espocar de fogos de artificio numa comemoração. Foi assim que começamos a nos desenvolver.


Não estávamos numa prisão, pelo contrário, era o Éden que existia dentro de ti, nele dormíamos, acordávamos, sonhávamos com não sei o quê, brincávamos.

Na medida em que fomos crescendo, nossas interações eram cada vez maiores: conversavas conosco todo o tempo, às vezes uma voz mais grave também participava de nossos encontros, naqueles momentos só sabíamos escutar e muitas vezes respondíamos com os nossos movimentos.


Sabe, vamos te contar um segredo que nunca lhe falamos; lá dentro na piscina aquecida onde nos gerou, praticávamos saltos ornamentais. Quantas vezes nos pediu para ficarmos quietos porque estavas cansada, e nós continuávamos nos nossos triplos mortais carpados, saltando de um lado ao outro?


O tempo foi passando, fomos crescendo, nossa área de proteção passou a ficar pequena, nossa convivência se estreitava a cada dia, suas emoções eram nossas emoções, sua voz nos acalentava e passamos a entender que tínhamos que interagir. Havia tempo de dormir, havia tempo de acordar, mas nem sempre nossos horários coincidiam e você, quase implorando, pedia:


- Me deixa dormir, me deixa dormir, me deixa dormir!


Nós sabiamos o quanto éramos importantes para você, mas também para quem estava à sua volta. Conseguíamos perceber que, na maioria das vezes, tanto nossos pais, como seus amigos se preocupavam mais conosco do que com você, mãe, e uma ponta de ciúme te invadia e quase sussurrava:


-E eu, e eu, e eu?!


Mas logo tudo passava, e o brilho dos seus olhos mostrava a todos o quanto estava feliz com nossa chegada tão próxima.


Um dia acordamos com um movimento que não conhecíamos, que nos apertava, nos comprimia, nos empurrava não sabíamos para onde. Havia em você uma mistura de amor, alegria e dor, mas também da ansiedade da chegada de alguma coisa que não sabíamos o que seria.


De repente, como se fôssemos um bólido, alguma coisa nos empurrou para um novo ambiente e, da escuridão em que vivíamos aquecido pelo teu calor, nos vimos iluminado, nossos olhos sentiram a presença da luz, conhecemos o outro lado, o frio.


Foi quando conseguimos expressar pela primeira vez nosso sentimento, e soltamos nosso primeiro vagido, tudo era novo, tudo era inseguro. Onde estava nosso porto seguro? Ouvimos uma voz que conhecíamos há muito tempo:


- Filho (a) não chora. É sua mãe!


Não conseguíamos enxergar direito, mas nosso olhar se dirigiu na direção daquela voz, que era mesma que escutávamos no nosso Éden. Reconhecemos seu perfume que nos envolvia desde lá de dentro. Quando por puro instinto colamos nossos lábios em seu seio, reconhecemos o gosto, e nossos olhos se fixaram nos seus, e pela primeira vez nos apresentamos, mãe e filho (a).


Hoje, pedimos sua benção, Nossa Senhora da Concepção, e só temos a agradecer por ter nos escolhido. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, estaremos juntos, mesmo estando longe.


Nossa tatuagem de nascença nunca nos permitirá esquecê-la, MÃE.



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