• José Leonídio

CALCORREANDO “PELA” VIDA


Calcorrear, verbo intransitivo que significa caminhar a pé, andar sob os calcanhares. O exemplo mais comum é quando você calcorreia, para atravessar poças de água. Neste momento você anda usando os calcanhares, evitando assim se molhar ou pisar na lama; é desta forma, que procuramos os terrenos mais firmes para pisarmos e nos protegermos.


Existem momentos na vida em que temos que nos desviar das agruras que são visíveis à nossa frente, nossos passos que, na maioria das vezes, são firmes. Nesses instantes nos levam a calcorrearmos, a pisarmos com os calcanhares para nos desviarmos das armadilhas que são postas nas trilhas que percorremos. É o famoso andar pisando em ovos, sem quebrá-los.


Transitar por caminhos desconhecidos, ou mesmo escuros, nos traz certa insegurança, por mais que estejamos firmes no nosso propósito. O que nos fortalece é que temos um norte, sabemos o que desejamos ao chegar ao fim da caminhada. Ninguém mergulha no vácuo da vida sem perspectivas, por mínimas que estas sejam.


Estamos em momentos difíceis, nos quais muito dos nossos objetivos para o futuro tiveram que ser adiados. Literalmente nossos calcorreios ficaram limitados ao nosso núcleo familiar. Fomos obrigados a reavaliar grande parte dos nossos projetos de vida, adaptá-los a uma nova realidade. Vivemos nosso dia a dia, esperando pela volta de um tempo, que com toda certeza não voltará mais.


O amanhã pleno pelo qual tanto desejamos não será igual a nada que vivemos até hoje. Convivemos com uma pandemia que se mantém há mais de 500 dias. Neste intervalo de tempo, mudaram-se os hábitos, mudou-se a visão da humanidade. O uso das máscaras pelos orientais, que tanto foi motivo de comentários críticos pelos ocidentais, hoje faz parte do nosso cotidiano. Virou acessório obrigatório e de uso universal.


Atualmente estamos calcorreando “pela” vida, andamos sobre os calcanhares procurando nos equilibrar e evitar cairmos, nas imensas poças que estão a nossa frente. Os respingos da pandemia entram nas famílias, enlutecendo-as. Alguns afirmam que independentemente de qualquer coisa todos têm direito a viver plenamente, que os mais velhos já a viveram sem restrições, por que cercear os mais jovens?


Não existe cerceamento, porque é um direito inalienável da pessoa viver da forma que escolheu para si. O que não está dentro da planilha da convivência é a irresponsabilidade, ou seja, exercer o seu poder de ser livre é inquestionável, o que não lhes é permitido é transferir os riscos de suas atitudes libertárias para pessoas que nada têm a ver com as suas escolhas.


Quando optamos por calcorrear “pela” vida, ou seja, caminharmos com nossos pés dando passos seguros, é porque colocamos a importância do respeito a higidez coletiva, respeitando aos nossos semelhantes, como respeitamos a nós mesmos. Desta forma conseguimos uma relação de equilíbrio entre todos, não importa a qual geração pertença.


Se, ao contrário, resolvemos usar o outro sentido do calcorreio e nos desviar das poças que são colocadas na nossa frente, podemos até ultrapassá-las, mas deixaremos para quem está ao nosso lado, ou atrás de nós, os riscos dos quais nos desviamos.


Calcorrear “pela” vida é em primeiro lugar respeitá-la em todos os sentidos. É aceitar que os direitos são iguais para todos, não importando a etnia, religião, o status social ou a faixa etária. É fundamentalmente entender que o meu direito pleno a vida é igual ao seu.



Calcorrear “pela” vida, andando sobre os calcanhares, é se desviar do seu compromisso como ser social, é desrespeitar os cânones da democracia plena.



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