• José Leonídio

33, DESTINO: DOM PEDRO II “Muito mais que um enredo”.

Há exatos 38 anos, sexta-feira 2 de março de 1984, o grupo 1B das Escolas de Samba do Rio de Janeiro iniciava seu desfile na Marques de Sapucaí, inaugurando a Passarela do Samba, projeto do arquiteto Oscar Niemeyer. Sábado, 3 de março, o sol ia alto, quando o famoso trem 33, Japeri – Central do Brasil, desviando de seu trajeto habitual, entrou para a história dos carnavais, tendo como condutor a representação cultural maior do bairro de Cavalcanti, o Grêmio Recreativo Escola de Samba EM CIMA DA HORA.  O som dos corações de cada morador, de cada componente, em uníssono transformou-se na própria buzina do eterno 33, pedindo passagem. Não era somente mais um desfile, não! Era o trabalhador, o operário em todas as vertentes com todas as suas armas, ungindo a “Passarela do Samba” a “Marquês de Sapucaí”, com o que possuía de mais valioso, o suor da sua lida. E a escola se apresentou garbosa, “sublimando em poesia, a razão do dia a dia, pra ganhar o pão”. O 33 serpentava, comia os dormentes, um a um na mais marcante viagem. Foram 700 metros percorridos e nunca mais esquecidos. O peito estava cheio de esperanças, as amarguras ficaram para trás. “A menina de laços de fita” se multiplicou: neste momento, era a rainha da bateria, destaque dos carros alegóricos e de chão, passistas, desfilava nas alas.  “As marmitas” eram os surdos, as caixas, os repeniques, tamborins, ganzás, enfim todos os instrumentos. Não houve avarias, nem atrasos, pelo contrário, somente a certeza de uma chegada triunfal na apoteose, idealizada por Darci Ribeiro. O 33 virou uma ópera linear, onde “damas e reis, vendedores, cartomantes, repentistas eram os artistas”, os vagões, seus palcos embalados pelo belíssimo samba de Guará e Jorginho das Rosas, interpretado por César do Vale, acompanhado por um coro de milhares e milhares de vozes, fossem moradores do bairro, componentes da escola, público nas arquibancadas  ou dos espectadores em casa. Quem diria que até o nosso cineasta maior, Nelson Pereira dos Santos, fez questão de entrar no 33 e gravá-lo para registro eterno. O famoso sardinha em lata abrira suas portas para que todos o conhecessem, para que todos ouvissem que: “Não é mole não, com a inflação, almejar a regalia, e o progresso da nação’. Transformamo-nos no “sardinhas 33, ao puro molho carioca”. Aqui não houve “atrasos, nem patrões mal-humorados por morarmos logo ali”, apresentamos nossas armas “de trabalho”. Nosso trem estava lotado de alegria, dividíamos nossos espaços sem preconceitos, porque o samba é o amálgama que nos unia e as escolas de samba, nosso porto seguro, juntos pelo som do Okan de todos nós, o surdo. Trinta e oito anos se passaram, o 33, Japeri – Central do Brasil mudou de número, porém sua identidade, sua gente, suas histórias permanecem vivas até hoje. Se um dia um colunista escreveu que A Em Cima da Hora levaria para a Passarela do Samba “a influência do número 33 no Destino de Dom Pedro II” se enganou, porque naqueles minutos apresentou-se o modus vivendi do trabalhador, sua resistência para ganhar o pão de cada dia e também sua alegria “por ser natural daqui do Rio de Janeiro.” E por ser tão atual, voltará a trilhar na Passarela Samba. José Leonídio Pereira Regina Celi Ribeiro Pereira.     “33 DESTINO DOM PEDRO II” Guará e Jorginho das Rosas Intérprete – César do Vale Vamos sublimar em poesia A razão do dia a dia Pra ganhar o pão Acordar de manhã cedo Caminhar pra estação Pra chegar lá em D. Pedro A tempo de bater cartão Não é mole não ] Com a inflação ] Almejar a regalia ] E o progresso da nação ] O suburbano quando chega atrasado O patrão mal-humorado Diz que mora logo ali Mas é porque não anda nesse trem lotado Com o peito amargurado Baldeando por aí Imagine quem é lá de Japerí Imagine quem é lá de Japerí Olhando a menina de laços de fita Batucando na marmita Pra não ver o tempo passar Esquecendo da tristeza quando o trem avariar Esquecendo da tristeza quando o trem avariar E na viagem tem jogo de ronda De damas e reis Vendedores, cartomantes, repentistas Tiram onda de artista No famoso "Trinta e Três" O trombadinha quase sempre se dá bem O paquera apanha quando mexe com alguém Não é tão mole andar de pingente no trem Não é tão mole andar de pingente no trem https://www.youtube.com/watch?v=kwPThKEe0WA

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