• José Leonídio

SORRISOS E LÁGRIMAS

Na Cartilha da Probidade publicada pelo professor Fernando de Magalhães, no auge dos anos de sua experiência, interagindo medicina e literatura, cita: A vida imita a arte no seu ponto focal, invertendo, desta forma, a afirmação de Aristóteles “A arte imita a vida.”

Naquele momento o mestre dos meus mestres foi além do que escrevera Oscar Wilde, ao dizer que “A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”.[1]

Levei muito tempo para entender os ensinamentos que continham sua afirmação, até que um dia ao contemplar uma árvore do anexo da Maternidade Escola da UFRJ, antes e depois de uma ventania, compreendi o sentido de sua asserção. Uma foto tirada antes e depois do vendaval não seriam iguais. No chão, mangas rosas, abricós, galhos e folhas. O ponto de observação era o mesmo, porém, com visões diferentes, embora muito parecidas.

A partir daquele momento passei a enxergar a vida como sendo poesias escritas por bilhões de mãos e lidas por bilhões de olhos. Às vezes poesias muito parecidas, mas sempre com nuances que a diferenciam umas das outras.

Poesia e medicina são muito próximas. Escrevemos e descrevemos sinais e sintomas, porém, assim como na poesia, cada paciente tem o seu singular; ainda que muito próximos, sua interpretação depende de quem a visualiza, ou seja, do profissional de saúde que interage com o mesmo.

Em tempos de isolamento pela ameaça da Covid-19, entendemos o quão certo estava o mestre. Cada cidadão acometido pelo Coronavírus é uma história escrita com caneta e tinta diferentes.

Nosso olhar passa a ser individualizado. Protocolos são frios e, se funcionam para alguns, não funcionam para outros. ”A vida imita a arte no seu ponto focal” e eis a razão que liga a medicina à arte.

Há pouco tempo, foi relatado que uma gestante acometida da Covid-19 necessitava de cuidados intensivos. A gravidez nos últimos três meses compromete a parte respiratória por comprimir o diafragma e impedir a expansão dos pulmões. Duas vidas e um só ponto focal - juntar mãe e filho em boas condições de saúde num futuro breve.

Arte[2] e vida se fizeram presentes e o objetivo foi conquistado. Depois de três semanas, os dois ficaram juntos novamente.

Hoje, quando contemplava meu quintal dando comida aos pássaros soltos na natureza, vi um dos maiores exemplos de tudo que aprendi na medicina e na poesia contida nos momentos críticos, de como a natureza nos ensina a sermos solidários quando tudo parece impossível.

As abelhas carregavam pedaços de milho picados para suas colmeias e os transformariam em mel. Foi quando pensei sobre como a relação de afeto entre todos pode superar o momento em que vivemos, com uns longes dos outros.

Como os poetas da medicina exercem sua arte respeitando cada situação em particular, uma lágrima pode se fazer presente pela alegria de uma alta, ou, talvez, quem saiba, pela perda de alguém que tem nome, endereço, família.

É no amor, na alegria e na tristeza, que a natureza nos ensina a sermos solidários. Não somos frios, nem racionais. Somos iguais a qualquer um; temos uma história dentro de nós. A arte e a medicina sempre caminham juntos.

[1] In: Pen, Pencil e Poison a Study in Green. [2] O parto cesáreo é um exemplo da arte na medicina. O ponto focal e o recém-nascido vir ao mundo na melhor condição que a natureza pode lhe oferecer.



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