• José Leonídio

SÃO SEBASTIÃO, OXOSSI E PORTELA




No fim do século passado, no bar do cruzamento da Zeferino Costa com Antônio Saraiva, em Cavalcante, ponto de encontro do saudoso João Severino, Presidente eterno da Em Cima da Hora, lá estava ele, no "seu escritório," o bar do Joaquim (se não me falha a memória), sentado na sua mesa cativa, tomando sua louraça gelada. Quando o vi, parei o carro (não morava mais no bairro) e fui pedir sua bênção; afinal era pai de todos os sambistas dali e quiçá de muitos do Rio de janeiro e d’além mar. O velho Severino fez questão que me sentasse, lembrou histórias de meu pai com quem sempre que podia proseava. Conversa vai, conversa vem, com sua voz quase de barítono, foi serpenteando pela história da criação das Escolas de Samba e principalmente daquela que foi o seu primeiro amor, a PORTELA. Foi um dos grandes auxiliares de Natalino José do Nascimento, Natal, e com ele aprendeu tudo que aplicou no seu segundo amor, A EM CIMA DA HORA. Esqueci da hora, dos meus compromissos ouvindo aquela enciclopédia viva da história das escolas de samba do Distrito Federal, a Guanabara, hoje cidade do Rio de Janeiro. Entre uma e outra cerveja, nomes, fatos, brigas, conflitos foram sendo repassados, porém um me chamou atenção e que envolvia a fusão da religião a arte popular. Nesse momento meus olhos brilharam porque nenhum crítico, nenhum comentarista de Escolas de Samba, se atreveu a entrar nesta vereda. Segundo o mestre Severino, o som do surdo das escolas de samba tem sua semelhança ao dos nossos corações. O TUM –TÁ, TUM – TÁ, surdo dentro do peito, só é ouvido quando encostamos nosso ouvido no peito de quem se ama, ou quando dentro ainda de nossas mães. Por isso, dizia ele, o som do surdo mexe com nosso interior, nos faz remeter a um tempo que não sabemos quando foi, nos mexe, nos remexe, aciona os botões de nossas emoções. Dentro destas lembranças é que surge a associação proposta acima, de São Sebastião, Oxóssi e a Portela. Segundo suas palavras, ainda nos idos dos anos 20 (precisamente 11/04/1926), foi fundado o conjunto carnavalesco Osvaldo Cruz, por Paulo Benjamim de Oliveira o “Paulo da Portela”, Antônio Rufino e Antônio da Silva Caetano. Alguns dias após Paulo da Portela, convidou a Yalorixá Martinha de Osvaldo Cruz, uma afro-descendente, cega e de cabelos brancos, que o batizou onde existia o Botequim do NOZINHO, assistido por Antônio Rufino e Paulo da Portela. Dona Martinha, com seus fundamentos religiosos no Candomblé, batizou o conjunto carnavalesco e declarou como padroeiros da agremiação OXÓSSI, no sincretismo católico SÃO SEBASTIÃO e OXUM, NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO. Meus olhos estavam vidrados, nos negros olhos de Severino meus ouvidos eram todos captadores da voz rouca e cheia de sabedoria do mestre. Mais muito ainda tinha por vir, pois os padroeiros continuaram os mesmos quando desfilou como “Quem Nos Faz é o Capricho”, em 1930, ou no “Vai como pode” e posteriormente, por força de imposição policial, é que sugeriu o nome “GRÊMIO RECREATIVO ESCOLA DE SAMBA PORTELA”. Mas, mesmo com esta maratona de diginas (designações), como ele dizia, os padroeiros se mantiveram, sua ligação com o panteão africano também e seu sincretismo com a religião católica. O que mais me encantou, e o que nunca ouvi relacionar, foi quando disse que o toque que precedia a entrada da bateria, nada mais ERA do que o toque de saudação ao ORIXÁ PADROEIRO, e que no caso da PORTELA, o toque que precedia era o AGUERÊ, o toque de saudação a OXÓSSI, e que no seu término entrava o som do coração sambista, o surdo que marcava então a entrada de todos os instrumentos. Este procedimento, segundo Severino, tornou-se comum a outras escolas, com o toque de saudação a Xangô na Mangueira, para Ogum no Salgueiro, o toque balanceado feminino e de sedução do IJEXÀ para Oxum na Mocidade. A única escola que não tinha relação direta com os orixás no seu toque de entrada era o Império Serrano, e, sim, com o Jongo da Serrinha, porém como o Jongo é uma dança ligada a reprodução entre as tribos africanas, e como tem toda uma liturgia antes do seu início, para ele tudo começava com um pé nas religiões africanas. Meu velho e inesquecível amigo, os tempos mudaram, mas as saudações através do repinique continuam, mesmo que quem os faz não saiba qual é o seu fundamento. Um grande abraço, meu eterno PRESIDENTE, em sua estrela colorida de azul e branco. Salve “OXÓSSI, SALVE SÃO SEBASTIÃO, SALVE A PORTELA."


Crédito da Obra:

Pintura da artista Branca Paixão

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