• José Leonídio

SÃO PEDRO, O PESCADOR

O rufar dos tambores anunciava a aproximação da procissão de São Pedro. As crianças corriam atrás das flechas que iluminavam o céu. À frente, os escoteiros responsáveis pelo anúncio da chegada do préstito, seguido das Filhas de Maria, responsáveis pelos cânticos. Nos ombros de fiéis que se revezavam, o andor do protetor das viúvas e dos pescadores, São Pedro.

Todos os anos os moradores de Cavalcanti aguardavam os festejos do padroeiro da igreja do bairro, São Pedro. Todas as casas se enfeitavam para a passagem dele. Com a volta da procissão, a igreja, o cerimonial de levar de volta São Pedro ao nicho onde ficava seu altar, tendo a acompanhá-lo e mostrando seu luto eterno, as viúvas com seus véus, seus rosários e as velas de cera acesas, envolvidas por papel de seda azul.

Ao fim da missa, a quermesse, com as barraquinhas, os leilões, o pau de sebo e a retreta num palco improvisado animando os participantes. Ao fundo, a fogueira com formato triangular e a salva de fogos de artificio quando era acesa. Ao mesmo tempo, um balão subia ao céu levando a figura de São Pedro todo confeccionado em lanterninhas.

Estas comemorações se perderam no tempo, porém, permanecem nas nossas memórias. O calor das fogueiras nos aquecia nas últimas noites frias do mês de junho. Os pedidos em forma de preces subiam aos céus com suas fagulhas, que mais pareciam estrelas que as conduziam.

Somos atávicos e o mesmo calor das fogueiras que nos aquece também ilumina nossos caminhos e prepara os alimentos tão tradicionais nas festas Brasil afora, neste dia em que comemora o apóstolo São Pedro, o guardião da porta do céu e o responsável pelas chuvas, principalmente na visão dos que moram no semiárido nordestino.

Desde a pré-história que o fogo nos acompanha, nos atrai e, quanto mais altas as fogueiras, dizem os antigos, mais rápidas nossas preces e nossos pedidos chegam aos céus.

Algumas tradições marcam a influência religiosa, como a origem dos troncos que são usados nas fogueiras, onde não se utiliza o cedro pela ligação que ele tem com o lenho da cruz de Cristo. Nem se usam os ramos da videira, porque de seus frutos é feito o vinho, que nas missas transmutam no sangue de Cristo, bem como a umbaúba, árvore que foi o refúgio de Maria quando de sua evasão para o Egito.

Mas por que São Pedro é considerado o primeiro Papa da Igreja Católica e é comemorado no dia 29 de junho? Este é o dia em que se comemora o martírio de Simão Petrus, o pescador. Na realidade são dois apóstolos que foram martirizados neste dia: São Pedro e São Paulo; em muitos lugares se faz a reverência aos dois neste dia.

A passagem bíblica do milagre dos peixes, quando Jesus mandou Simão (Petrus depois o apóstolo Petrus) pescar em águas profundas, depois de lhe emprestar uma de suas embarcações para pregar. Naquele dia as redes dos pescadores tinham voltado vazias, e ao aceitar a indicação de Jesus Cristo, e ir a área recomendada, a quantidade de peixes que pegou em suas redes, era tão grande, que precisou de outras embarcações para transportá-los.

Estamos em águas rasas, em tempos difíceis, porém, assim como as fogueiras lançam suas fagulhas aos céus levando nossos pedidos e nossas preces, nossos pensamentos positivos e a fé que todos temos dentro de nós, será a fogueira mais alta que levará nossos pedidos ao céu, e, com eles, a confiança de que voltaremos a pescar em águas profundas.

Temos a certeza de que as procissões na terra e no mar voltarão e as chuvas cairão fertilizando nossos solos e abrandarão o calor da febre. Tenham um dia de São Pedro e São Paulo com muita energia, com as labaredas das nossas fogueiras interiores que tudo podem.

Eu posso, eu acredito, eu consigo.


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