• José Leonídio

O VENTO QUE NÃO SE VÊ



Nesta semana de reflexões, um pensamento de Platão me chamou atenção pela sabedoria contida nele:


“O que faz andar o barco não é a vela enfunada[1], mas o vento que não se vê...”.


Toda ação que temos na vida começa no primeiro momento, onde um objetivo é traçado, mesmo que este não seja consciente. Toda caminhada começa com o primeiro passo, quando imaginamos qual será o seu final.


Traçamos nosso caminho na exatidão do trajeto que nos levará aonde desejamos chegar.


Em momento algum imaginamos que obstáculos poderão

atravessar nossos caminhos, retardar o que pretendemos atingir.


Nem sempre conseguimos enxergar o horizonte à nossa frente na plenitude que tem. A vida é repleta de variáveis que se alteram a cada milésimo de segundo.


Quando o vento faz o barco singrar os mares, impulsionando-o através de suas velas, não o vemos, mas sua energia é suficiente para levá-lo ao destino. Assim somos nós: nos deixamos levar por nossa energia interior que nos impulsiona, nos tira da inércia. Os passos seguintes são os que o damos, com maior ou menor velocidade de acordo com o que escolhemos.


Dizem que nascemos com destino traçado, que um dossiê com tudo o que faremos na vida vem acoplado com a nossa existência. Não acredito nessa hipótese. Somos o que somos, construímos nossa história através das experiências adquiridas que vêm desde a nossa concepção até a fase adulta, e é construída no dia a dia baseada nos nossos erros e acertos.

Assim como as naus nos oceanos, que seguem seus destinos impulsionadas pelo vento na bujarrona[2], e que em várias ocasiões trazem junto às grandes tempestades, que colocam em prova as habilidades dos marinheiros, nossas ações também nos direcionam ao que queremos conquistar só que, do mesmo modo, estamos sujeitos as intempéries.


Experiências acumuladas são como vento. Não vemos, mas sentimos sua presença. Na medida em que o tempo vai passando, o novo para nos sensibilizar tem que vir acompanhado de um grande incentivo, aguçando nossa curiosidade, pois terá que ultrapassar as barreiras naturais formadas a partir de nossas vivências. O passado aplicado no presente é o primeiro passo para o futuro.


O jovem e as experiências novas parecem irmãos siameses; não se descolam, um não vive sem a presença do outro. Na medida em que as novidades vão se tornando menos frequentes, passamos a ser mais exigentes com o que nos é apresentado. Nosso arquivo remoto de experiências vividas não é visível, nem nos permite consultá-lo.


Esta é de uso exclusivo do nosso inconsciente para delinear nossos passos. É um filme que não visualizamos, porém, está arquivado para ser acessado e servir de modelo em momentos semelhantes, nos orientando sobre qual a melhor atitude, qual a trilha a ser seguida.


Quando agimos por impulso, abrimos mão de todo esse conhecimento e estamos mais próximos do erro do que do acerto.


Plagiando Platão, nossa sabedoria é como o vento que não se vê, mas que leva o barco ao destino. Ela é cumulativa, é uma biblioteca formada de saberes, construída nas experiências. Não a desprezem.

[1] Enfunada – Abaulada pelo vento; Cheia de vento. [2] Bujarrona - A maior das velas de proa, de forma triangular.

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