• José Leonídio

O SILÊNCIO DAS CIGARRAS


Nestes últimos meses, me acostumei de domingo a domingo a ouvir a “Ave Maria” de Franz Schubert na Hora do Angelus, em seguida à sinfonia das cigarras.


Há alguns dias percebi o silêncio delas. Para mim, pela entrada do tempus autunus, o outono, como meio caminho para o tempus hibernus, o inverno. Hora de hibernarem até a entrada do primus veris, a primavera.


Esta associação me tocava tão profundamente que ficava aguardando na janela do meu apartamento o início da mistura de fé e amor. Era hora de mergulhar para dentro de mim e agradecer a quem me dava este presente, um casal da terceira idade, que transbordava fé em forma de música.


Ave Maria, gracia plena, era assim que começava nosso momento de fé, Ave Maria, cheia de graça. Aos poucos fui percebendo que junto ao silêncio das cigarras veio também a que sempre lhe precedia, a Ave Maria, de Franz Schubert.


De repente um vazio, estava faltando a razão que nos levava à janela todos os dias na mesma hora. A motivação de professarmos juntos, nossa religiosidade, não importava a origem, era um verdadeiro culto ecumênico, pelas ondas sonoras em homenagem a mãe maior, MARIA.


Teriam as cigarras parado de cantar somente pelo tempus autunus, ou também sentiam falta da melodia que lhes incentivava a declarar seu amor à natureza? Será que a Ave Maria, de Franz Schubert, cessou, porque seu complemento, o canto das cigarras se fez ausente?


Não tinha resposta, a única resposta era o vazio. Estava ausente a razão de ir à janela e de me entregar àqueles minutos de pleno fervor, de agradecer a Deus e àqueles que me proporcionavam instantes de plena paz interior. A natureza estava sombria e silenciosa. As àrvores se desnudavam, deixando cair ao solo suas folhas amarelecidas, mostrando que tinham cumprido suas missões.


Durante alguns dias fiquei à espera do retorno, me dirigia à janela, rezava minha Ave Maria solitário, aguardava que a qualquer momento a Hora do Ângelus, se fizesse acompanhar do seu canto supremo.


Comecei a perceber que não era só eu, a minha volta havia uma aura de tristeza, as andorinhas que mergulhavam alegremente no fim das tardes, escassearam, o sabiá calou-se, os biguás se ausentaram.


O que teria acontecido para este sentimento coletivo de ausência, da amálgama que a todos unia. Nosso mosaico de fé, se desmontara, estava atônito, procurando o que? O porquê? A razão que estava por trás de uma comiseração que também era nossa. Por mais que procurássemos entender, não conseguíamos. A fé e a natureza silenciaram.


A resposta veio através da comunicação de que os responsáveis pelos nossos momentos de fé tinham alçado um plano superior, o casal que nos abençoava todas as tardes, tinham partido para sua viagem maior, juntos na eternidade. Plantaram entre nós o amor, a fé, e teve a acompanhá-los a natureza. Partiram mas deixaram suas sementes.


Por mais pesaroso que seja a perda nestes tempos sombrios em que vivemos, aquele era um momento onde o casal unia não somente os seus, mas também a todos nós, ouvintes anônimos, que recebíamos as bênçãos de quem só irradiava a luz e a paz.


As cigarras não se calaram, as andorinhas não perderam sua alegria, o sabiá não parou de declarar seu amor. Só mudaram de paragens, simplesmente foram recepcionar no Edén eterno, ao som de “Ave Maria” de Franz Schubert seus novos moradores. A lua se encheu de brilho, iluminando seu caminho, porque uma etapa foi cumprida, com amor, dedicação, carinho e fé.

Aos que aqui ficam o exemplo de como a vida deve ser vivida. Continuarei a escutar a canção maior de Maria, a ouvir as cigarras porque estas ficarão gravadas para sempre dentro de mim. Muito obrigado por nos permitirem enxergar o verdadeiro amor, aquele feito de esperança e, principalmente, amor ao próximo. Que as suas fés sejam as nossas fés.






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