• José Leonídio

MUDANÇAS



Mudanças. A palavra traz no seu contexto o desapego, o deixar para trás muito do que se constrói ao longo da vida, seja material ou emocionalmente.


Mudar o que? Seu modus vivendi, sua forma de ser ou de agir, seu contexto esculpido no dia a dia de sua existência?


Ou mudar sua forma de enxergar o mundo em volta, suas visões e interpretações sobre ele?


Ou, quem sabe, mudar a si mesmo, a forma através da qual você vê as pessoas e o mundo?


Não sei. São tantas as perguntas que confesso não saber por onde começar a respondê-las. Tenho certeza, contudo, de que o ontem não será igual ao amanhã, por mais que queiramos que seja.


Quando damos um passo em direção ao futuro, o passado transforma-se em lembranças e o hoje, na estrada que nos levará até ele.

Nas varandas da vida, acostumei a ver o horizonte aberto. Enxergo-o em sua plenitude, aprendi a ler o hoje vivenciando sua imensidão. O canto do sabiá acordava a mim e ao sol no nascer da manhã e cantava para me adormecer e avisar que estava na hora de acompanha-lo.


Quantos verões, outonos, invernos e primaveras vivemos juntos. Teu calor me aquecia; o bailar de tuas folhas cansadas, amarelecidas, me enobreciam mostrando um ciclo da vida pelo qual, irremediavelmente, teríamos que passar. O frio, com minha lareira acesa, tijolos vindos da Itália distante, sua história centenária, funcionando como alento de nossos corpos frigidos pela temperatura dos trópicos. A alegria dos pássaros, as cores que dão o belo aos contornos das flores que perfumam o ar.


Ah, existe sim um hiato na vida; imaginamos nossas aldeias, dentro do contexto das raízes que se espalham pelo solo e vão dando origem às novas árvores, os novos ninhos. Ledo engano! Como os pássaros que levam as sementes ao longe, o que pensávamos que seriam novas ocas, novas famílias, estas se formam, sim, porém, à distância. As sementes germinaram sem que pudéssemos acompanhá-las.


Neste momento, o horizonte pleno torna-se grande demais, e aí temos que tomar uma decisão. A MUDANÇA, mudar o que? A nós mesmos. Se não podemos mais enxergar o horizonte em sua plenitude, que o enxerguemos nas nesgas que os grandes palácios de concreto nos permitem enxergar. Nada é tão intransponível que não possa nos mostrar o que está por trás de si.


Existe vida além das muralhas. O sol as atravessa, suas sombras não são capazes de apagar o nascer do amanhã.


Vejo através do que me é permitido enxergar, um céu azul, um amanhecer que invade de certeza as minhas realizações. Vejo o bailar dos biguás e o ribombar das ondas ao longe. São muitas mudanças, mas nada que me impeça de seguir adiante.


O universo é infinito, nossos caminhos também, não somos nós quem definimos o fim, ele simplesmente acontecerá.


Se não posso mais ver o horizonte em sua plenitude, que o veja da maneira que

posso, e que o viva da melhor forma possível, afinal a vida me trouxe até aqui, e isto é sinal de que me esforcei e fiz por merecê-la.


Se horizonte me mostra nesgas do mar, que ótimo que ainda posso vê-lo.

Mudanças, um estado de espírito, um desapego do passado, um mergulho no presente, aprontar novos caminhos para o futuro.

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