• José Leonídio

DEUS É A NATUREZA

Não é a primeira vez que me remeto ao primeiro homo sapiens e faço sua associação com a presença de um ser superior, alguém que teria criado tudo que está em nós e em volta de nós. Se essa figura que está acima assim procedeu ele também nos forneceu as condições para sobreviver.


Ar, terra, fogo e água, os quatro elementos fundamentais. Sem eles, seria impossível a continuidade da vida terrena. Se voltarmos aos conceitos primevos, a África, vamos ver que no calendário original entre os povos iorubás a semana era constituída por quatro dias e eles se remetiam aos quatro componentes essenciais.


Ao contrário do calendário ocidental, teríamos o dia da água, o dia do fogo, da terra, e o da energia vital. O dia do ar seria o grande dia, aquele que remete ao ser maior, Olorum, Oxalá. Podemos concluir que a natureza era o mais sagrado, era a grande criação, era a dádiva divina.


Cada elemento passou a ser associado a uma entidade divina, ao que chamamos de orixás. Não se criou um único responsável por todos os elementos fundamentais, porque todos saíram do imaginário da coletividade e com um objetivo: manter viva a Mãe natureza.


A preservação das águas dos rios, dos oceanos, da chuva, era fundamental para a manutenção da vida e sua perpetuação. Quando as nações as reverenciavam estavam agradecendo e mantendo sua existência, fundamental para a existência dos seres vivos. Nos geramos na água e sem ela não vivemos.


A terra continha todos os elementos que propiciavam a manutenção da vida nas tribos, dos alimentos aos princípios que a natureza fornecia para o alívio e à cura das doenças adquiridas ao longo da vida. A sabedoria no lidar com as plantas e as ervas eram passadas de geração a geração e sempre com um cunho familiar, afinal o que é bom para os meus pode não ser o melhor para os seus.


O fogo trazia a energia do céu através do raios e coriscos e também permitia a transmutação, a proteção, a confecção de armas e utensílios. Sua utilização permitia também a transformação e, sobretudo, o aquecimento nas noites mais frias e a proteção contra os inimigos naturais. O elemento fogo era fundamental para o fortalecimento dos reinos, das tribos.


Por fim o elemento mais ligado ao divino, o ar, a energia vital, o sopro da vida. Sem ele a vida não existiria. De que adianta abrir os olhos ao nascermos, se o prãna não estiver presente? Somos alimentados por ele através do ar que nossa mãe respira, e nos transfere via placenta e cordão umbilical.


Quando saímos do abrigo materno, e nos deparamos com uma nova realidade, esta só será possível se o ar estiver presente. Nosso primeiro vagido é a resposta de que deixamos de ser dependentes de nossas mães e passamos a ser independentes, respiramos o ar que vai nos permitir crescer e evoluir.


Toda essa associação entre os elementos da natureza, as divindades do panteão africano e a figura de um Deus que a tudo criou vem num momento onde todos os ditames fundamentais da manutenção da vida são quebrados. De que adianta fazer preces, acender velas, ler salmos, citar o alcorão na torá, evocar mantras, se o fundamental deixamos de fazer?


Deixamos de ver a figura de Deus como a própria natureza viva, como o divino que existe dentro de nós. O egoísmo de que Deus a tudo proverá está nos levando ao caos, ao apocalipse. Onde a pandemia mais agride, onde a natureza sofre na mão dos que rezam pelo milagre divino.


Não existe milagre divino se não fizermos a nossa parte. Deus é a energia fundamental da vida e vem do equilíbrio da natureza. Não é Deus quem está nos castigando, quem nos tira o ar, somos nós mesmos que estamos nos destruindo, ao não respeitarmos os princípios básicos da preservação do nosso meio ambiente. Viva a sabedoria dos ancestrais da MÃE ÁFRICA.







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