• José Leonídio

CONSCIÊNCIA


CONSCIÊNCIA, substantivo feminino de origem latina que tem na sua etimologia o prefixo com, a união, o encontro e scire associado em sua origem à capacidade de distinguir ou julgar, analisar.

Desta forma, CONSCIÊNCIA é a visão que temos de uma determinada condição com a qual convivemos e o discernimento sobre o bom e o mau, o bem e o mal, valores que estão ligados às concepções e perspectivas nas quais as dimensionamos.

Se nos remetermos às diversas concepções religiosas, veremos que cada uma possui visões diferentes, sejam as de origem cristã; as orientais, como o Budismo; o Kardecismo; as politeístas, como as originárias da África ou dos povos ameríndios.

O conceito de consciência transcende os postulados ou os ensinamentos passados de geração para geração.

O ato de julgar o seu semelhante de acordo com a visão de uma ou mais pessoas não significa a consciência de um povo, de uma etnia e, sim, a tendência de poucos em se tornarem um ser superior em relação a alguém que teve a mesma origem, nasceu da mesma forma.

O fato de crescer com mais condições do que a que está ao seu lado não determina superioridade: somos iguais, nascemos e morreremos. A luz que nos ilumina não é seletiva, não colore nossas sombras para os mais favorecidos e escurece para os menos. Ela é a mesma, e seu trajeto acompanha nosso ir e vir.

Numa determinada ocasião, postei que “preta é a superfície, negra é a raiz”, em referência a origem do homo sapiens nas savanas africanas. A diáspora primeva foi sendo diferenciada por questões climáticas, o tom da epiderme, que foi se clareando não por valores ditos étnicos, mas, por mais que quisessem, não apagou do seu genoma os traços originais, de pés pisando o solo africano.

A concepção do Deus supremo, de Olorun, aquele que está acima de nós e que a tudo enxerga e a tudo vê, não é originária da inteligência escrita e, sim, da comunicação oral, do que foi passado de aldeia para aldeia pela voz monocórdica dos Akapalos, os contadores de histórias nas aldeias africanas, e que chegou aos escribas que compuseram os diversos livros sagrados, sendo a Biblia o mais conhecido. Como dito, outras também a transmitem na sua visão, dentro do contexto das suas aldeias, com valores étnicos, religiosos e morais que estavam de acordo com seus modus vivendi e a sobrevivência do clã.

Consciência não tem a ver com etnia, religião ou moral, consciência tem a ver com a sua própria origem, quem não consegue enxergar as diversas etnias como fruto de uma única raiz, a das savanas africanas, desconhece a si mesmo, porque a forja quem lhe deu suas formas de agir, de se colocar perante a dita sociedade, simplesmente porque difere de sua origem.

Minha epiderme é branca. Poderia afirmar que sou uma mutação. E, por que não uma aberração, em relação ao princípio do surgimento do homo sapiens? Tenho a consciência de que sempre convivi com meus irmãos porque somos frutos da mesma fornalha.

Quando tenho que defender o Dia da Consciência Negra, me afasto de minhas origens, me afasto da Mãe África, do início de nossas jornadas. Acho que melhor seria o dia se conscientizar de que todos somos iguais. O dia em que todos, sem distinção de etnia ou religião, devíamos nos quedar ao chão e pedir perdão por nossos antepassados, por não enxergarem o mal que fizeram para milhões de nativos, de africanos e ou afrodescendentes.

Se houve um holocausto judeu, com milhões sendo dizimados pelos alemães, tivemos muito maior, com dezenas de milhões de ameríndios, africanos e afrodescendentes, que foram exterminados em nome de uma pseudossupremacia de um Deus (que nunca lhes pediu isto como prova de sua extremada obediência), ou de valores étnicos bíblicos que atestavam a superioridade do mesmo.

Consciência está acima de tudo. Consciência é conseguirmos enxergar quem está a nossa frente como irmão, é nos despirmos da vaidade étnica e religiosa. É poder dividir nossa refeição, por mais humilde que seja, com o próximo que está mais necessitado do que nós, consciência é o lema Tupinambá: LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE, que atravessou os oceanos e deu origem a Revolução Francesa. Como dizem em Ioruba okàn mímó, eu amo vocês!

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