• José Leonídio

A ARTE DE DIZER, SEM PODER FALAR


Dizem os mais antigos que o sabiá é o despertador das manhãs e do sol. Quando os primeiros raios surgem no distante horizonte, seu gorjeio faz-se presente como que para saudar sua chegada. Só bem depois, quando o astro rei se apresenta totalmente, é que para de gorjear.


Se ele lhe dá as boas-vindas, no fim da tarde também vem se despedir, num até amanhã melodioso. A natureza nos presenteia com o que tem de melhor, embora nem sempre a reconheçamos. Inúmeras vezes a desrespeitamos, sem perceber que estamos agredindo a nós mesmos.


Um dos hinos com uma das mais belas melodias é indiscutivelmente o Hino Nacional, de Francisco Manuel da Silva, o Chico Músico, composto na Guanabara, a antiga capital do reino em 1822. Segundo alguns relatos, sua introdução foi inspirada no canto do Sábia Laranjeira, abundante em sua propriedade na Boiuna, em Jacarepaguá.


A composição de Chico atravessou os séculos. Um hino feito para a Independência que posteriormente passou a receber sua primeira letra em homenagem a Dom Pedro I. Com a ascensão de Dom Pedro II, deram-lhe nova letra que se perpetuou até a Proclamação da República.


Os Republicanos resolveram criar um novo hino, com nova música e letra, porém segundo relatos da época, os militares não gostaram da trilha sonora, preferiam a original, com o gorjeio do Sabiá como introdução.


O novo hino passou a ser o Hino da República e procurou-se uma nova letra que se adaptasse à beleza da composição original. A maioria não foi aprovada; em 1922, Joaquim Osório Duque Estrada apresentou a versão que se perpetua até os dias de hoje. Um poema épico, diria que na época era a “ARTE DE DIZER, SEM PODER FALAR. ”


A letra tem no seu conteúdo o canto nativo de um povo heroico com seu brado retumbante, porque em teu seio reside a liberdade. Gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso porque o teu futuro espelha essa grandeza.


No dizer dos críticos que não conhecem sua origem é um hino de indolente ao conter num dos versos: Deitado eternamente em berço esplêndido. Ao som do mar e à luz do céu profundo. Aqui está a beleza da “ARTE DE DIZER, SEM PODER FALAR”.


Joaquim Osório Duque Estrada, de forma poética, homenageava o povo nativo, os velhos pajés, aos deuses imortalizados nos grandes totens que persistem até hoje, Tupã, Metaracanga, o índio com seu penacho que representa a realeza, a Pedra da Gávea denominada por José de Anchieta e o Seio de Iara (Guana), o Corcovado de onde sai o Rio Carioca para formar a Guanabara (O mar formado pelo seio de Iara).


A sua composição traz, implicitamente, alusão ao holocausto dos povos nativos, os milhões que sucumbiram na sanha dos ditos descobridores de se apoderar das terras e das riquezas do que chamava de Éden de novo mundo. A falsa supremacia ariana sobre os povos indígenas e também sobre seus irmãos africanos escravizados.


A utilização da licença poética complementou a beleza da composição musical. Passados praticamente dois séculos desde o primeiro hino e um século da letra. Esta se faz mais atual do que nunca quando afirma que: mas ergues que a justiça é clava forte, verás que um filho teu não foge à luta, nem teme, quem te adora, a própria morte.


A ARTE DE DIZER, SEM PODER FALAR foi o que usamos contra os anos plúmbeos, nossa maior arma, sem cheiro de pólvora. Voltamos a ter nuvens pesadas sobre nossas cabeças, a negação ao óbvio, o direito pleno a saúde. De uma maneira ou de outra voltamos aos tempos de antanho. A pandemia está presente e não vem em ondas, pelo contrário, é um tsunami que se faz presente há 16 meses, ceifaram 504 mil vidas, dos que conseguiram sobreviver, milhões levarão por toda a vida sequelas.


Dentro de cada brasileiro retumbam os versos que nos dão a esperança: Brasil, um sonho intenso, um raio vívido, de amor e de esperança à terra desce, se em teu formoso céu, risonho e límpido, a imagem do Cruzeiro resplandece, A ARTE DE DIZER, SEM PODER FALAR.


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